O Futebol como Plataforma de Impacto Social: o caso irlandês que comprovou, por meio do SROI, a viabilidade de expandir uma iniciativa comunitária
- 6 de ago.
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Fundada em 2017, na Irlanda, a Football Cooperative (FC) é uma empresa social criada com o propósito de reunir homens por meio do futebol recreativo ("pick-up football"), utilizando o esporte como ferramenta para promover saúde física, saúde mental, integração social e redução do isolamento masculino. A iniciativa organiza partidas competitivas duas vezes por semana, em campos de grama sintética, sendo coordenada por voluntários responsáveis pela organização dos jogos e pela manutenção dos valores da organização: comunidade, inclusão, respeito, espírito esportivo e aprendizagem contínua. Até a elaboração do relatório, a Football Cooperative reunia 807 membros cadastrados em dois locais da Irlanda, com a visão de expandir o modelo para comunidades em todo o país e, futuramente, para outros países.
O estudo de Retorno Social sobre o Investimento (SROI) foi desenvolvido como parte de um projeto de doutorado da South East Technological University (SETU), Irlanda, financiado pelo South East Research Development Fund, com apoio de um conselho consultivo formado por organizações de referência nas áreas de esporte, saúde pública, governo e terceiro setor, incluindo a Football Association of Ireland (FAI), UEFA, Sport Ireland, Department of Health, Irish Heart Foundation, Irish Cancer Society, Rethink Ireland e Volunteer Ireland. O propósito da avaliação foi responder a uma pergunta estratégica: a Football Cooperative gera impacto social suficiente para justificar sua expansão em larga escala?
Para responder a essa questão, foi aplicada a metodologia internacional de Social Return on Investment (SROI), reconhecida mundialmente por mensurar o valor social, ambiental e econômico gerado por projetos sociais. A avaliação contemplou todas as etapas previstas pelo método, desde o mapeamento das partes interessadas e construção das Teorias da Mudança até a mensuração dos resultados, monetização dos impactos e aplicação dos fatores de ajuste metodológicos — como deadweight, displacement, attribution e drop-off — garantindo uma estimativa conservadora e robusta do impacto produzido.
Foram avaliados quatro grupos principais de stakeholders: os participantes, seus familiares, os coordenadores voluntários e os parceiros comunitários responsáveis pelas instalações esportivas. Ao longo de 12 meses, os pesquisadores utilizaram um desenho quase-experimental, combinando avaliações físicas, questionários, entrevistas e grupos focais para identificar mudanças efetivamente atribuíveis à iniciativa. Os resultados demonstraram ganhos relevantes na saúde física, na saúde mental, na integração social e na qualidade das relações familiares, além de identificar, de forma transparente, efeitos adversos relacionados ao aumento de pequenas lesões esportivas. Também foi constatado que quanto maior o nível de participação dos jogadores, maiores eram os benefícios alcançados.
Após a monetização dos impactos e a aplicação de todos os ajustes metodológicos, o estudo concluiu que a Football Cooperative gera € 17,60 em valor social para cada € 1 investido. Mesmo nas análises mais conservadoras, o retorno permaneceu extremamente elevado, variando entre € 14,08 e € 26,14 para cada euro investido, evidenciando uma excelente relação custo-benefício.

Com base nesses resultados, o Advisory Board concluiu que havia evidências suficientes para recomendar a expansão (scale-up) da Football Cooperative para outras comunidades. A decisão não foi tomada apenas pela qualidade da iniciativa, mas porque o SROI demonstrou, de forma objetiva, que o modelo produz benefícios sociais muito superiores aos recursos investidos, oferecendo uma base sólida para decisões de financiamento, replicação e políticas públicas. Como consequência, foi iniciada a elaboração de uma estratégia para ampliar a iniciativa em diferentes regiões da Irlanda e, posteriormente, em outros países.
Um olhar para o futebol brasileiro
O caso da Football Cooperative demonstra que o futebol pode ser muito mais do que uma atividade esportiva ou de entretenimento. Quando estruturado com objetivos claros, boa governança e uma metodologia rigorosa de avaliação, ele se torna uma poderosa ferramenta de promoção da saúde, fortalecimento comunitário, prevenção do isolamento social e geração de valor para a sociedade.
No Brasil, clubes de futebol movimentam milhões de pessoas, possuem enorme legitimidade social e mantêm projetos voltados à educação, inclusão, saúde e desenvolvimento comunitário. No entanto, poucos desses programas conseguem demonstrar, de forma quantitativa, qual é o valor social efetivamente gerado pelos recursos investidos. Isso dificulta a captação de investimentos, a expansão das iniciativas e a construção de políticas públicas baseadas em evidências.
A aplicação da metodologia SROI ao contexto do futebol brasileiro representa uma oportunidade estratégica para mudar esse cenário. Ao mensurar resultados e traduzi-los em valor econômico, torna-se possível demonstrar o retorno gerado para a sociedade, aumentar a confiança de financiadores, orientar decisões de investimento e identificar quais programas possuem potencial para serem ampliados em escala.
Mais do que comprovar impacto, um SROI fornece uma base técnica para que clubes, institutos, federações, empresas e governos possam decidir quais iniciativas merecem crescer, onde investir recursos e como maximizar o valor social produzido pelo futebol.
Se na Irlanda um projeto comunitário conseguiu comprovar um retorno de € 17,60 para cada € 1 investido, o futebol brasileiro — pela sua dimensão, alcance e capacidade de mobilização social — possui um potencial ainda maior para gerar transformação. O desafio agora não é apenas criar boas iniciativas, mas mensurá-las com rigor, produzir evidências e utilizar esses resultados para escalar aquilo que realmente transforma vidas.
Para ter acesso ao relatório completo clique aqui.
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